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Alegria, positividade e resistência: três palavras-chave para descrever o artista Guilherme Almeida

Manuela Parrino
2022

Manuela Parrino | Alegria, positividade e resistência: três palavras-chave para descrever o artista Guilherme Almeida, 2022

A alegria vem de sua família; a positividade a partir da necessidade de fugir do estereótipo do artista negro, pobre e cercado de violência; e a resistência a um sistema que faz com que ser negro no Brasil hoje ainda signifique racismo e lutas diárias.

Quando o conheci em seu ateliê em Salvador da Bahia, fiquei impressionado com sua complexidade simples. "Por que as pessoas não questionaram os pintores renascentistas que retratavam uma mulher se vestindo ou uma mulher com uma joia só porque sentiam vontade de pintar esses assuntos? Como artista negro, por que tenho que pintar miséria e violência?"

Guilherme quer pintar sua vida, a vida da Bahia, a cidade mais negra mas também a mais alegre do Brasil, e de sua família que é um tumulto de festas, encontros alegres e música. "Minha avó teve seis filhos, e cada um tem dois ou três filhos. Todos nós vivemos em dois edifícios comunicantes. Esta é a minha vida; é isso que eu quero representar. Claro, morando em um bairro suburbano, também cresci cercado de violência, mas não é isso que me representa."

Vamos começar do começo. Desde cedo, Guilherme adorava desenhar e ler histórias em quadrinhos e sonhava em ser cartunista. Seus pais queriam que ele estudasse arquitetura; ele se matriculou na Academia de Belas Artes. A primeira exposição veio aos 17 anos. O estudo da teoria da pintura e a descoberta de Giacometti o levaram ao abstracionismo, mas a reação pública o levou a revisitar o figurativo. "As pessoas que não estão envolvidas com arte pensam que o artista abstrato é hiper-intelectual e se distanciam porque não acham que são inteligentes o suficiente para entender. Vi essa reação nos jovens que vieram à minha primeira exposição. Eu queria fazer arte para me comunicar com todo o público, mas, ao mesmo tempo, não queria me distanciar do abstrato. Então tentei trazer o figurativo de volta ao abstrato por meio de materiais, texturas e processos criativos."

Não te incomoda ser conotado como um artista de cor? "Nem tanto, porque falo sobre questões íntimas como família ou masculinidade que transcendem a raça. Me incomoda se a escolha dos meus assuntos é questionada. Minhas pinturas vêm de fotografias, de momentos do meu cotidiano. Minha inspiração é Kerry James Marshall. Ele pinta apenas o cotidiano: um homem na barbearia, uma mulher aplicando maquiagem e uma família no jardim. Marshall foi minha primeira referência de arte negra porque na Academia tudo é eurocêntrico." Ele continua me dizendo que até os materiais eram eurocêntricos "eles nos obrigavam a comprar lápis, tintas e papéis importados. A ideia era que você é um bom artista se pintar a óleo sobre linho. Eu não podia pagar por isso e comecei a usar os materiais que tinha em casa."

A série "Destruição de Mercados" veio dessa luta, retratos em novas páginas de papel. "Diariamente, nos jornais, os negros são assassinos, ladrões, traficantes. E eu costumava pintar sobre pessoas felizes. No começo, eu não me importava se era um retrato de uma pessoa famosa; Eu só queria pintar uma pessoa negra sorridente na primeira página do jornal. Com o tempo, percebi que as pessoas se relacionam mais se conhecerem as pessoas que estão sendo pintadas.

Trabalhar no sorriso me levou ao estudo da escravidão e do mercado de escravos, onde eles olhavam para os dentes para ver se os negros eram saudáveis. Na cultura hip-hop, por outro lado, os negros começaram a tirar fotos de si mesmos exibindo seus dentes incrustados de ouro ou diamantes. Não foi apenas um sorriso. Foi um desafio."

Os sorrisos dourados pintados por Guilherme representam poder porque no Brasil, onde a escravidão ainda persiste em roupas novas, a felicidade e os sorrisos são uma ferramenta poderosa para a população negra contra o racismo.