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Convergência de afetos

Agnaldo Farias
2024

Agnaldo Farias | Convergências de afeto, 2024

Amante da vida e de sua gente, Guilherme Almeida tem colocado a tradição africana no centro da sua poética. A força de seu trabalho advém dessa clareza, do interesse em garantir uma posição central aos saberes, as religiões de ascendência africana, cuja presença viva, ademais do seu papel crucial no estreitamento das relações entre o corpo o espírito e a natureza, são trincheiras de resistência. Telas como Perfumes para Senhor do Bonfim, Cosme e Damião, Subindo a Barroquinha atrás de Santa Bárbara, Se arrumando para Yemanjá, Samba de roda, são protagonizadas por representações econômicas, lavradas em desenhos de contornos grossos e cores vivas, de mulheres, homens, velhos e crianças, as voltas com ritos cotidianos de louvor as divindades, ao reconhecimento de que as atividades terrenas justificam-se a partir de empreendimentos conectados ao passado. A retomada respeitosa e constante dessas práticas, com destaque as que acontecem a céu aberto, que tomam para si o corpo da cidade, faz com que os antepassados se tornem presentes, palmilhando novamente o chão que outrora percorriam descalços. Um processo em que o antigo é a seiva que flui pelas veias dos corpos novos. Notável a busca desse jovem artista e a lucidez com que emprega o jornal como parte integrante de sua pintura. Aluno da Universidade Federal da Bahia, não entendia e não aceitava a prescrição de telas para a realização de pinturas, a linguagem que ele adotou para si. A intransigência de seus professores pareceu-lhe um modo de reprodução de uma teoria e prática discricionárias, alheias a realidade da periferia da Salvador e do Recôncavo, por onde vive e por onde se espalha sua família e seus iguais, onde o pouco e o ordinário, como o jornal, as latas de refrigerante e as garrafas de plástico -PET, são preciosos. Guilherme Almeida O processo de reciclagem, pedra de toque da nova agenda burguesa, vem sendo consciente e inteligentemente praticado desde sempre pelos extratos desfavorecidos de todos os povos que compõem o Brasil. A articulação das figuras humanas, dos objetos que compõem as cenas dessas telas, entre planos pintados com cores chapadas e retalhos de jornal, faz com que os retratados mantenham um pé na esfera intangível e outro na realidade. Nessas obras de agora, a imprensa, no Brasil o arauto de transmissão dos valores estabelecidos, tem que se haver com valores profundos, humanos, as festas de rua, os encontros com os amigos e parceiros, o comércio com a pureza dos sentimentos, a crença de que tudo que existe deve ser guiado por orientações superiores. Não obstante toda a dor sofrida e por sofrer, pois o caminho segue sendo árduo, para o nosso artista ainda vale a letra do imortal samba Alegria, de Assis Valente, ele próprio criança roubada dos pais e que trabalhou como escravizado muito depois da abolição da escravatura:

Minha gente, era triste e amargurada,

a batucada, pra deixar de padecer

Salve o prazer, salve o prazer.