De lá desde aqui
Lorraine Mendes | De lá desde aqui, 2024
Nos morros e avenidas, comunidades e bairros, é através do ritmo que se aprende e se ensina concepções de mundo. Tais modos de viver desafiam tradições que forçosamente tentam se impor como a ideia unificada de cultura e civilidade brasileiras. Da Baía de Todos os Santos, território onde nunca pisei, escuto ritmos que ressoam movimentos de recusa às estruturas sociais e que, incessantemente, criam e recriam modos engenhosos e sofisticados de organização coletiva.
Em Cosmopoéticas do Refúgio, Dénètem Touam Bona, pensador francês de origem múltipla, costura o reconhecimento de que a vida é artista, que nos hábitos e festividades vividos na coletividade encontramos a antiga saídas para problemas que ainda caminham entre nós, pessoas negras desse vasto chão que convencionamos chamar de Brasil. Podemos entender, através de Bona, que desde os Vissungos, os cânticos e cerimônias coletivas dos nossos povos, funcionam como lembrança, insubordinação e memória.
Vissungos são as canções de caráter responsorial praticados por negros e africanos escravizados nas lavouras e nas minas do estado de Minas Gerais. Mas esses cantos também eram entoados para o amanhecer, para o desejo e outras atividades cotidianas e cerimoniais como os enterros. A língua cantada, além do pretoguês, era principalmente uma mistura entre o kimbundo e o Nbundo, idiomas que até hoje marcam o nosso falar.
Muriquinho piquinino,
Ô parente,
Muriquinho piquinino
De quissamba na cacunda.
Purungunta aonde vai,
Ô parente.
Purungunta aonde vai
Pru quilombo do Dumbá.
O trecho da transcrição do Vissungo 62 é música velha para meus ouvidos, crescida em Minas, em família negra da área rural de uma pequena cidade. Tão velha quanto a memória que evoca, tao resistente quanto o tempo que testemunha, a música tamborilada com as pontas dos dedos que aprendi com meu pai quando ainda criança, segue a me reconectar com uma negritude irrepresentável, que escapa, com beleza e festividade, com ritos e encenações da concepção de negro inventada pela armadilha colonial.
Nos afirmar como irrepresentáveis é um gesto estético-político de recusa. Recusa que parte de uma poética preta contemporânea aos modos e modelos de representação da negritude na história da arte branco-brasileira e ao sistema empreendido por ela, que, nos moldes da colonialidade, segue a lógic segue a lógica da exploração e da apropriação de nossos corpos, histórias, vidas e futuros. A saída em direção a um presente-futuro, é pedra cantada no passado-presente: a rasteira é dada pela coletividade, seus gestos, festas e odos inventivos de ensinar, celebrar e aprender.
Em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Lélia Gonzalez (2018, p.138) entende como neurose cultural brasileira o desprezo pela formação plurirracial e pluricultural da nossa sociedade, a denegação. Tal problema, segundo a autora, violenta e desrespeita as alteridades, promovendo apagamentos, repressão e recalcamento das culturas subalternizadas. Um dos processos de recalcamento a que a autora se refere é a noção de que existe uma cultura brasileira que permitiu a influência de certos elementos culturais indígenas e negro-africanos. Tal entendimento parte da hierarquização, que afasta e que mais uma vez marca a diferença entre a cultura como elemento europeu, logo superior, e o selvagem e grotesco lugar da outridade. Essa hierarquização contribui diretamente para o discurso que define as religiosidades, hábitos, idiomas, formas de organização social e modos de vida não brancos como primitivose sem história. Tendo esse discurso como orientação, temos um segundo par de opostos que coexistem: a consciência e a memória.
É na consciência que se encontra a história e o discurso hegemônico que, na condição de outridade, nos definem pela infantilização e estereotipização. Já a memória opera o lugar que restitui a história que não foi escrita.
A memória é a rasteira. É pela memória que se conta o que a história não conta: tomando emprestado da literatura, aqui nos interessa também a escrevivência, presente originalmente na obra de Conceição Evaristo, como exercício de contar com o próprio corpo-coletivo e linguagem aquilo que a história escolheu recalcar. Completar as lacunas com a ficção que queremos projetar no futuro, deixar ver e saber os afetos e ações dos nossos, criando assim uma memória futura, pelos nossos termos.
“É na malungagem, é na restituição de laços de uma experiência afro-diaspórica comum em origem e no reconhecimento do trauma que restauraremos organizações comunitárias nesta sociedade, e que possam reverberar no campo das artes visuais.” (FELINTO, 2021, p.40).
Renata Felinto nos lembra da Malungagem, da restituição de laços e das organizações comunitárias. Quando observo a produção de Guilherme Almeida chegam até mim os ritmos que nunca escutei, mas que comungam com os vissungos que aprendi com meu pai, as estratégias de vida, memória e restauração através da pertença.
Crescer ouvindo, brincando, jogando e reverberando é crescer na permanência de laços e festas que asseguram a nossa continuidade. O corpo que festeja é o mesmo que luta. O corpo que aprende é o mesmo que ensina. Ciclos de negras vidas seguem comungando princípios e valores passados de mão em mão, de ritmo em ritmo, rumo a um negro futuro que já existe.
BONA, Denetem Touam. Cosmopoéticas do Refúgio. Florianópolis, SC. Cultura e Barbárie, 2020.
FELINTO, R. O feminicídio epistemológico. Jacarandá: Arte & Poder,[s. l.],2021. Disponível em: https://bit.ly/3CThUMm. Acesso em: 3 abr. 2021.
GONZALEZ, L. Primavera para as rosas negras:Lélia Gonzalez em primeira pessoa. São Paulo: Diáspora Africana, 2018.