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Previsões Atmosféricas

Matteo Bergamini
2026

Matteo Bergamini | Previsões Atmosféricas, 2026

Fragmentos, recortes de mundo; cartões-postais vindos de terras cujas geografias se situam incertas no mapa: a última produção do pintor Guilherme Almeida (Salvador, 2000) afasta-se da figuração, dos ritmos e das explícitas referências baianas investigadas nos últimos anos, abarcando hoje uma pesquisa analítica da construção da natureza, ou melhor, da sua representação.

As obras que compõem esse conjunto pictórico apresentado pelo artista na Galeria Base podem ser observadas tanto de uma forma singela – cada visão fala por si – quanto como uma única paisagem que ultrapassa, por sua vez, fronteiras, biomas, culturas, linhas de horizonte, ainda que a própria Bahia – terra dos afetos e da memória de Guilherme – continue a inspirá-lo, mais uma vez, nas peregrinações em volta do mistério da pintura.

Em 2024, durante uma entrevista no seu ateliê, disse-me: "Eu não pinto, eu limpo o pincel: o meu método é acabar com a tinta presa nele". Fiquei surpreso. Nem tanto pela ideia, mas sim pela manifestação do gesto em si: observando-o, via-se claramente o material da pintura quase cravando na tela, esculpindo-a de uma forma inusitada, redonda. Lembrou-me do Pontilhismo do século XIX, aquele movimento que surgiu quase como epígono do Impressionismo, incorporado a uma vertente que hoje poderíamos até definir como "pop" e também "popular", já que se tornou a técnica mais comum para as crianças aprenderem as bases da arte.

Porém, há algo escuro nestas marcas traçadas por Guilherme Almeida, a lembrar mais Van Gogh do que as misturas ópticas de Georges Seurat e Paul Signac. Talvez, aliás com certeza, por uma questão de paisagem: nada de "Circo" ou de "Um Domingo à tarde na Ilha de Grande Jatte", mas a mata fechada à beira do Atlântico; detalhes misteriosos da floresta mais rica, mais ameaçada e mais menosprezada do planeta. Na produção de Guilherme, revela-se a sua vida à face do mundo: escondida na penumbra ou branqueada pelo sol, guardando os seus encantados e a sua identidade camaleônica, apresentando-se conforme aquelas partículas de luz que iam cativar os sentidos dos Impressionistas.

Guilherme Almeida os nomeia sem pavor: Turner, Monet, Magritte são a sua tríade de referência para reescrever a sensação da natureza. Envolve-os sem medo para investigar formas de representação que subvertem todos os estereótipos em torno das regras acadêmicas da "boa pintura". De fato, o nosso artista, hoje, dá-se o luxo de explorar novamente a percepção do mundo natural rumo aos ícones da impressão, do surreal, do abstrato: remodela cânones que ainda estão soltos, entregando um imaginário que reverencia a história da arte, atualizando-o em uma forma carnal e até feroz de pintar, cuja melhor descrição viria da voraz pincelada impressionista que Almeida reaviva.

A série "Silêncio da Mata" entra na imagética mais sublime da natureza em relação ao olhar humano: abandona as ideias comuns relativas ao sujeito, pois na homenagem que o pintor oferece ao Reino de Oxóssi vive a simultaneidade que somente existe nas recordações, muitas vezes reveladas pelo cinema ou pela música de uma forma bem mais primorosa daquela conseguida pelas artes visuais: "Quando iniciei esses trabalhos, eu lembrava da infância, nas idas à praia, mergulhando por longos períodos, nas viagens à roça do meu tio e quando me perdia em meio às árvores. O grande silêncio que existia nesses momentos me interessava", explica-nos o artista.

Fora de padrões, esses "frames" escuros e brilhantes remetem às folhas avermelhadas pelas cores do pôr do sol ou cuja natureza em transe vem sendo alterada pela claridade do dia; nessas visões, ultrapassam-se os tons da representação clássica, mesmo continuando com o mais antigo dos meios da arte: a tinta e o pincel. Contudo, não foi o mesmo Magritte que revolucionou a ideia da semântica visual utilizando as formas mais convencionais — dir-se-ia até banais — da figuração?

Nessas telas de pequeno formato, cuja maioria remete a uma condição climática, a uma temperatura do entorno, circula-se no eixo dos sonhos, dos pressentimentos e – como em um paradoxo – a floresta se torna viva além da própria ideia: xeque-mate contra Platão, cuja filosofia relegava a mimese da arte ao mundo do engano, enquanto somente os pensamentos viveriam na pureza.

"Esse transitar entre a abstração e a figuração é um lugar que eu tenho buscado muito. Nos últimos tempos, interroguei-me muito sobre a questão da mancha e da textura. O meu olhar acabou puxando muito para esse lugar até a figuração humana desaparecer...", relata Guilherme, que tem trabalhado nesse conjunto — aqui apresentado — nos últimos meses, buscando uma visão que abrace aquele mistério da vida que desde sempre envolve a sua produção.

Como já relatado, a Bahia do artista ainda é o ponto de observação de uma natureza quieta mas sem filtros, testemunhada por encontros surreais: nos tons do amanhecer ou do breu; no brilho ou na ausência de cores. Em alguns desses quadros, as vibrações de cinza alcançam a dimensão mística da contemplação, da metamorfose: fenômenos físicos entram na disputa dos elementos e conseguem amplificar uma mirada que se torna um reflexo interior.

Eis que nessas pinturas aparecem inversões de perspectiva ou excêntricos personagens: garças gigantes na linha do horizonte, uma linha de pesca transformando a cena toda em pintura abstrata, a chuva molhando em "itálico", palmeiras chovendo, um robalo fora do mar — talvez aprendendo a voar num ato extremo de metamorfose ancestral? — plantações de eucalipto no Recôncavo, a ilha de Itaparica como limiar e um barco flutuando no céu. Será mesmo, ou talvez esteja boiando na água quando absorve a cor do próprio ar, nos instantes mais metafísicos que nos presenteia o pôr do sol na Baía de Todos-os-Santos?

Enfim, a paleta: nessa coleção de paisagens, pertence às áreas de reflexão. Longe de um planeta em chamas, as explorações de Guilherme Almeida nos levam a um momento cristalizado, onde temos que nos reconhecer: nós diante do ambiente, ele diante de nós ensaiando a sua forma mais íntima, mais voluptuosa. E os títulos, sintetizando o que enxergamos estupefatos: a declaração definitiva de que sim, o mistério permanece intacto mesmo homenageando e aproveitando sem relutância as buscas mais poderosas das vanguardas, em uma renovada riqueza tropical.